Há 120 anos, Brasil e Japão assinavam tratado que
permitiu que 200 mil migrantes do país asiático se estabelecessem aqui,
garantindo mão de obra para as plantações de café, que já não contavam
com trabalho escravo. Acordo foi homologado pelo Congresso um ano depois.

O
Tratado de Amizade, Comércio e Navegação inaugurou as relações
diplomáticas e econômicas entre o Brasil e o Japão. Foi também o início
da história de 1,6 milhão de brasileiros descendentes dos 200 mil
japoneses que se estabeleceram no Brasil — a maior população de
japoneses fora do Japão. Mas, para os desbravadores japoneses, esse
início não foi fácil. A pobreza e o preconceito foram os desafios.
O
editor de imagens Roberto Suguino também narra o choque cultural vivido
pelos avós maternos no Brasil. O avô desceu em Santos em 1917, com
apenas 1 ano e 10 meses. A avó chegou em 1934, com 12 anos. As duas
famílias foram para Arthur Bernardes (PR).
A
família paterna do monge Ademar Sato chegou no segundo navio japonês a
aportar em Santos (SP), em 1910. Foi para uma fazenda de café perto de
Araçatuba (SP). O pai dele nasceu no Brasil, em 1914. Segundo o monge,
era um típico caipira paulista, chamava-se Seite. Mas tinha também
nacionalidade japonesa. Por causa disso, foi convocado para lutar na
guerra entre o Japão e a China, que começou em 1937.

Em
18 de junho de 1908, aportou em Santos (SP) o navio Kasato Maru. Dele,
desceram 781 japoneses que vinham para o Brasil em busca de melhores
condições de vida. Eram os primeiros imigrantes do Japão a pisar em solo
brasileiro. Para que isso acontecesse, as negociações entre os dois
países começaram bem antes, culminando no Tratado de Amizade, Comércio e
Navegação, firmado em 5 de novembro de 1895, que agora completa 120
anos.
O documento foi aprovado pelo Congresso Nacional em novembro de 1896.
Naquela época, como hoje, os acordos internacionais eram firmados pelo
Poder Executivo, mas precisavam ser homologados pelo Poder Legislativo.
Durante um ano, deputados e senadores da Primeira República dedicaram-se
a discutir os termos do tratado e seus custos e benefícios.
O principal propósito era, de fato, atrair imigrantes japoneses.
Desde antes da abolição da escravatura, em 1888, já se discutia no
Parlamento a necessidade de uma política imigratória para suprir a
carência de mão de obra, sobretudo para a lavoura cafeeira de São Paulo.
Em segundo lugar, o acordo internacional visava abrir novos mercados
consumidores para o café do Brasil.
A imigração italiana começou em 1870. Em seguida, vieram os
espanhóis. No entanto, segundo o historiador Clodoaldo Bueno, os
imigrantes europeus eram considerados “instáveis”:
— Fazendo muita economia, os imigrantes conseguiam comprar uma
pequena propriedade. O sucesso do imigrante se media pela possibilidade
de ele largar a enxada e ganhar a vida em outras funções que não fosse o
duro trabalho rural ou, pelo menos, de trabalhar em sua própria terra.
Alguns se repatriavam ou reimigravam. Iam para a Argentina, por exemplo.
Não era uma mão de obra firme e o fazendeiro sempre estava precisando
de gente. Então era preciso pensar sempre em outra saída — explica
Bueno.
Saída asiática
A China foi a opção inicial. Os chineses já haviam sido trazidos ao
Brasil por dom João VI para ensinar o cultivo de chá, mas a empreitada
não prosperou. Em 1880, o governo imperial assinou um tratado de
comércio e imigração com a China. Essa segunda tentativa também
fracassou. Entre os motivos, estavam as condições análogas às da
escravidão em que eram mantidos os chineses, que recebiam salários muito
baixos, e as diferenças culturais, um obstáculo à integração dos
imigrantes. Com a República, o tratado foi suspenso.
Em 1894, o diplomata José da Costa Azevedo, o barão de Ladário, foi
em missão à China para promover um novo acordo. Mas, num telegrama
enviado de Hong Kong, afirmou ser a imigração chinesa “um mal moral”
para o Brasil, sem justificar seu julgamento, e defendeu os japoneses.
“O Japão está no caminho de um progresso febril. Tem leis, tribunais e
juízes até certo ponto iguais aos dos países mais adiantados”, escreveu
o barão.
Diante disso, o presidente Prudente de Morais determinou que o
diplomata brasileiro na França procurasse seu colega japonês para propor
um acordo. Em 5 de novembro de 1895, Gabriel de Toledo Piza e Arasuke
Sone firmaram em Paris o Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação,
iniciando as relações diplomáticas entre os países.
A medida foi festejada pelos parlamentares. O deputado Artur Rios
comemorou a vinda do “povo mais ilustrado do extremo oriente”. Para o
senador Gomes de Castro, os japoneses eram “um povo que revelou
qualidades superiores e uma civilização muito adiantada”.
Houve quem contestasse as despesas que a iniciativa implicaria para o
Brasil. Na Câmara, o artigo que previa o envio de pessoal diplomático
para o Japão gerou polêmica. Deputados alegaram que a crise econômica
não recomendava o aumento dos gastos e autorizaram só a transferência de
servidores, mas não a contratação de novos. No Senado, a medida foi
considerada pelo senador Coelho Rodrigues “uma economia de palitos”. A
emenda da Câmara foi derrubada e o governo, autorizado a manter pessoal
diplomático em Tóquio, sem explicitar se haveria transferência ou
admissão de novos funcionários.
A questão econômica não se resumia aos gastos diplomáticos. O senador
Gomes de Castro contestou o fato de o governo despender dinheiro dos
impostos para trazer estrangeiros com o objetivo de ocupar postos de
trabalho dos próprios brasileiros.
— Os nobres senadores compreendem que país nenhum, ainda que
estivesse regurgitando dinheiro, que não é essa a nossa situação,
pagaria passagens a imigrantes para se empregarem em condutores de
bondes, engraxates, vendilhões, fazendo uma concorrência esmagadora ao
povo brasileiro — afirmou.
Preço da passagem
Gomes de Castro também reclamou de os estados do Norte, bastante
despovoados, não se beneficiarem da imigração. À época, a vinda dos
imigrantes devia ser custeada pelos estados. Segundo ele, a maior parte
dos estados do Norte e do Nordeste não podia bancar as despesas.
— O Amazonas, não obstante ter muito dinheiro, tem muitas
necessidades, não pode estar a pagar, só de passagem, 500$ a 600$ [réis]
por cabeça de japonês — disse Gomes de Castro, reivindicando que a
União arcasse com esses custos.
O historiador Clodoaldo Bueno vê nesse embate um fator positivo em relação ao funcionamento do Parlamento de então:
— É lógico que havia representantes do café e outros que também se
envolviam nas questões do café. Mas o Congresso tinha uma visão mais
ampla do que se imagina. Lendo os anais, vê-se que representantes de
vários estados tratam de questões nacionais, que outros interesses
também estão bem representados, não só o café. Havia uma corrente forte
contra a imigração subsidiada.
Superpopulação fez Japão incentivar emigrações
Em meados do século 19, o Japão iniciou um processo de modernização,
com a abertura para o mundo ocidental. A imigração surgiu, para o
governo japonês, como solução para a superpopulação e a pobreza. Em
1896, o país tinha 40 milhões de habitantes e escassez de terras.
Primeiro, estimulou-se a ida de trabalhadores rurais para a
Califórnia e o Havaí, nos Estados Unidos. Mas as denúncias de
maus-tratos foram muitas e o Japão interrompeu o fluxo migratório. Foi
quando a proposta do governo brasileiro surgiu como uma nova
possibilidade. Ao contrário do Japão, o Brasil era subpovoado. Com um
território 22 vezes maior do que o japonês, o país contava com apenas 12
milhões de habitantes. A população japonesa era quase quatro vezes
maior do que a brasileira.
Choque
A ideia dos imigrantes era vir para o Brasil, enriquecer e voltar
para o país natal. Após 40 dias de viagem pelo mar, os primeiros
japoneses chegavam, em geral, ao porto de Santos e daí eram distribuídos
entre as fazendas de café de São Paulo e do Paraná. Era quando eles se
davam conta da realidade que os esperava.
— Os japoneses que vieram eram pobres, mas não sabiam que iriam
trabalhar nas fazendas de café. No Japão, trabalhavam em pequenas
propriedades. Aqui, encontraram o mar verde dos cafezais, o sol dos
cafezais. Tudo era diferente, a dimensão da terra, o sol, os
instrumentos de trabalho. Imagina isso para quem nunca tinha visto uma
pessoa diferente de um japonês? — conta o monge Ademar Sato, responsável pelo Templo Budista Terra Pura, em Brasília.
— Minha avó não conhecia beterraba. Quando lhe deram para cozinhar,
ela estranhou aquela água vermelha e achou que era veneno. Não comeu —
diz.
A avó contava que no Japão todas as panelas eram esmaltadas. Ao
chegarem ao Brasil, o único objeto esmaltado que encontraram foi o
penico.
— Como não falavam português, acharam que penico era panela e nele
cozinhavam. Foi uma visita brasileira que avisou que não era panela —
conta.
Suguino explica que os avós nunca retornaram ao Japão porque ganhavam
muito pouco aqui. Foi ele, o neto, quem conseguiu retornar à terra dos
antepassados. Atualmente, 175 mil brasileiros vivem no Japão, a maioria
descendente de japoneses, os decasséguis.
Suguino emigrou em 1990. Foi admitido numa montadora de carros. Lá, soube que os antigos imigrantes eram mal vistos.
— O japonês acredita que quem emigrou quando a situação estava
difícil foi um traidor da nação, saiu quando o Japão mais precisava. Não
é verdade. Os japoneses pobres foram incentivados pelo governo a sair
do país — afirma ele, que voltou para o Brasil depois de oito anos.
“Japoneses no Brasil foram vítimas da ignorância da guerra”, diz monge budista
Encerrada sua missão na guerra em 1942, ele foi da China para o
Japão, onde se casou com a japonesa Kinuko. O casal voltou num dos
últimos navios japoneses que vieram para o Brasil antes de o país cortar
relações com o Japão por causa da 2ª Guerra Mundial. Aqui, foi preso
por ser um militar japonês e passou dois anos na cadeia, repetindo o
destino de muitos outros imigrantes durante o conflito mundial.
O monge Sato relembra:
— Os imigrantes de maneira geral sofreram repressão nessa época.
Italianos e alemães, por causa da aparência, foram mais aceitos no país.
Os japoneses têm aparência especial e foram vítimas da ignorância que a
guerra significa. Entrei na escola primária sem falar português. As
crianças corriam atrás de mim tacando pedra e gritando: “Japonês, volta
para o Japão!”. Isso me provocava muito terror.
Durante a 2ª Guerra, o Brasil chegou a ter espécies de campos de
concentração onde eram aprisionados imigrantes italianos, alemães e
japoneses. Segundo o monge Sato, sua mãe sofreu um grande trauma quando o
marido foi preso.
— Minha mãe cultuava a cultura japonesa no Brasil: disciplina,
respeito ao próximo, gentileza. Ao mesmo tempo, tinha um grande
preconceito contra o brasileiro. Com o Japão devastado pela guerra, a
intenção de voltar foi frustrada porque o país não podia recebê-los. De
modo geral, os japoneses buscaram, então, a inserção social por meio dos
filhos, incentivando-os a estudar.
Ademar Sato estudou economia e direito em São Paulo. Na juventude,
participou dos movimentos estudantis e da ação católica universitária
contra a ditadura militar. Acabou se exilando no Chile. O monge só
surgiu em 1995, quando ele se mudou para Brasília e foi morar perto do
templo budista previsto por Juscelino Kubitschek e inaugurado em 1973,
hoje tombado como Patrimônio Histórico do Distrito Federal.
— Tudo converge para o budismo, não o que aprendi quando criança, mas
o budismo que uni com a minha formação política e social. A luz de Buda
é para todos. Antes, este templo budista só atendia em língua japonesa.
Mas os imigrantes japoneses foram morrendo e nem todos os descendentes
se interessaram pelo budismo. Abri o templo para todos. O número de
frequentadores aumentou de forma significativa. Como dizia [o
antropólogo] Darcy Ribeiro, raça forte é raça misturada.
Fonte: Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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